27 janeiro 2014

Possibilidades

Ficar divagando sobre possibilidades meio que já parte da minha natureza. Às vezes acho isso bom, às vezes acho isso ruim. Mas, como eu disse, isso já é meio que parte de mim. Sinto que eu não seria eu mesmo se eu não divagasse sobre possibilidades.

Será que o norte da África seria hoje mais desenvolvido se Cartago não tivesse sucumbido ante ao poder de Roma? Será que a União Soviética ainda existiria se Lenin não tivesse morrido em 1924? Bom, deixe isso de lado, isso não tem nada a vez com o que eu quero falar.

Acho que eu comecei essa divagação quando eu tinha 9 ou 10 anos. Cedo. Muito cedo para começar a se preocupar com o que poderia ter sido ou com o que poderia ser. Pior ainda quando o assunto de minha divagação era algo que me faria ser acossado pelos machos-alfas de minha família.

"Troca" de sexo.

Troca de sexo não é bem o que expressa isso, é meio complicado, mas vou tentar explicar. Eu era um garoto aparentemente normal quando tinha uns 9 ou 10 anos. Mas um garoto aparentemente normal que sofria um bullying feroz, e não parecia lá muito bem vindo em minha própria casa. Então eu comecei a pensar sobre o que me rodeava, e o pensamento que me veio foi: "Por que eu não nasci uma garota? Estou certo que algumas delas podem se odiar, mas elas não tem a urgência em humilhar as outras. Além disso, minha mãe trata minha irmã diferente do jeito que me trata. Será que ela me trataria melhor se eu fosse uma garota?"

Esse "lamento" segue comigo desde então. Não consigo deixar de pensar "e se eu fosse uma garota?", isso meio que se tornou um mantra. Ainda de certa forma pelo motivo já citado, mas alguns foram acrescentados.

Um é que eu não me sinto realmente um homem por agir e/ou pensar diferente de todos os que eu conheço. Primeiro que as mulheres não estão erradas (apesar de existir particularidades) em reclamar que homens só pensam em sexo. Quase todos os homens que eu conheço só passam o dia só pensando qual será a próxima mulher que eles vão levar pra cama, seja ela a sua própria, a dos outros, ou qualquer uma que eles tenham visto na rua. Não que eu tenha algo contra o ato sexual. Sexo deve ser realmente bom para todos os que experimentam, mas a urgência dos homens de querer enfiar seu pênis em algum buraco, pra mim, é doentia. Além da urgência por sexo, ainda tem a necessidade de humilhar do aquele que eles acham inferior. Sei que as mulheres também pecam nesse quesito, mas, nos homens, isso é mais claro. A necessidade de mostrar força, poder, supremacia. A necessidade de provar para os outros homens que é um macho-alfa. Bem, eu não faço nada disso.

Outro motivo, e eu nunca falei sobre por que acredito que me trancariam num hospício de eu fizesse, é eu queria ser mulher para namorar outras mulheres. Me sinto um idiota falando isso, "Você já é homem! Você só pode ser doente em pensar uma coisa dessa!" é, certamente, o que me diriam. Mas, na minha opinião, a relação entre duas mulheres é, de certo modo, mais pura que qualquer outra relação, independente da perversão que uma, outra ou ambas possam ter. Além disso, isso sempre me pareceu, bem, mais excitante. Mas acredito que eu deva me conformar, pois não há meios de eu conseguir tal feito. Nem mesmo cogito cirurgia para troca de sexo. Me sentiria sendo apenas uma falsificação. No meu DNA ainda estaria escrito XY.

Acho que eu não sou normal.

Procuro não falar disso. Não apenas por causa dos machos-alfas, mas por que eu tenho algumas amigas que gostam de garotas, e não quero que elas tomem isso errado, nem que evitem agir naturalmente com suas respectivas namoradas na minha frente achando que eu vou correr direto pro banheiro se eu vê-las fazendo um carinho um pouco além do normal. Não sou assim.

Outra coisa que eu fico divagando é: como seria ser outra pessoa? Por que eu tive que ser eu? De certo modo, isso está implícito no meu lamento em não ser uma garota. Imagino como seria poder ser outra pessoa. Ver alguém na rua e, de alguma forma, ver com os olhos dela, com as perspectivas dela, saber o que ela pensa, viver a vida dela, mesmo que seja por pouco tempo.

Há tantas possibilidades pelas quais já divaguei, e outras tantas pelas quais vou divagar, acho que elas seriam suficientes para escrever um livro inteiro. Mas isso não é um livro.