31 março 2014

Valerie

Eu não sei quem você é. Por favor, acredite... Não há como convencê-lo de isto não é mais um truque deles, mas não importa. Eu sou eu e não sei quem você é, mas eu te amo. Tenho um lápis pequenininho que eles não encontraram. Sou uma mulher. Escondi dentro de mim. Talvez eu não possa escrever de novo, por isso, esta será uma carta muito longa de minha vida. É a única autobiografia que vou escrever e, oh, Deus, estou escrevendo num papel higiênico.

Eu nasci em Nottingham, em 1957. Chovia um bocado. Passei no teste de avaliação e fui para uma escola feminina. Eu queria ser atriz. Conheci minha primeira namorada na escola. Seu nome era Sara. Tinha quatorze anos; e eu, quinze. Nós duas estávamos na classe da Srta. Watson. Suas mãos.. elas eram lindas. Na aula de biologia, contemplando o feto de coelho no jarro de picles, fiquei ouvindo a Sra. Hird dizer que isso era uma fase da adolescência que as pessoas superam. Sara superou. Eu, não.

Em 1976, parei de fingir e levei uma namorada, Christine, pra conhecer meus pais. Uma semana depois, fui para Londres e me matriculei na Escola Dramática. Mamãe disse que parti o coração dela... mas minha integridade era mais importante. Isso é egoísmo? Pode não ser muito, mas é o que nos resta aqui. São nossos últimos centímetros... mas, neles, nós somos livres.

Londres. Eu era feliz em Londres. Em 1981, interpretei Dandini em Cinderella, meu primeiro trabalho profissional. O mundo era estranho, farfalhante e conturbado, com platéias invisíveis por trás das luzes quentes e ofegantes. Glamour. Era excitante e, ao mesmo tempo, solitário. A noite, eu ia ao Gatewars ou outras casas noturnas, mas eu era bem retraída e não me misturava facilmente. Eu via de tudo, mas nunca me senti confortável. Lá, havia muitos que só queriam ser gays. Era a vida deles. Sua ambição. Era só disso que falavam e eu queria mais do que aquilo.

O trabalho evoluiu. Consegui pequenos papéis em alguns filmes. Depois maiores. Em 1986, participei do As Dunas de Sal. Ganhou todos os prémios, mas não o público. Conheci Ruth trabalhando nele. Nós nos amávamos. Fomos morar juntas. No dia dos namorados ela me mandava rosas. E, Deus, tínhamos tanto. Foram os três melhores anos da minha vida.

Em 1988, houve a guerra. Depois disso, não houve mais rosas. Pra ninguém.

Em 1992, depois que tomaram o poder, começaram a prender os homossexuais. Levaram a Ruth enquanto ela procurava comida.

Por que eles tem tanto medo de nós?

Queimaram Ruth com pontas de cigarro e forçaram a coitadinha a dar nomes. Ela assinou uma declaração de que foi seduzida por mim. Eu não a culpei. Eu amava a Ruth, não podia culpá-la. Mas ela sim. Ruth se matou em sua cela. Ela não pode viver depois de me trair. Após ceder aqueles últimos centímetros.

Oh, Ruth...

Eles vieram me buscar. Disseram que todos os meus filmes seriam queimados. Rasparam meu cabelo, meteram minha cabeça numa privada e fizeram piadas sobre lésbicas. Fui trazida para cá e drogada. Não sinto mais minha língua, e nem posso falar. A outra lésbica daqui, Rita, morreu duas semanas atrás. Acho que vou morrer logo também. É estranho que minha vida possa acabar neste lugar horrível, mas, por três anos, eu recebi rosas e não tive que prestar constas a ninguém.

Eu vou morrer aqui. Cada centímetro de mim morrerá... exceto um. Um só. É pequeno e frágil, e é a única coisa no mundo que vale a pena se ter. Não devemos jamais perdê-lo, vendê-lo ou entregá-lo. Não podemos deixar que alguém tire de nós.

Não sei quem você é, se é homem ou mulher. Talvez eu nunca o veja, nem te abrace, nem bebamos juntos, mas eu te amo. Espero que consiga fugir daqui. Espero que o mundo mude, que as coisas melhorem, e que, um dia, as rosas voltem.

Queria poder te beijar.


                                                                               Valerie


(Extraído de V de Vingança. de Alan Moore e David Lloyd)