Foda.
Às vésperas de completar 30 anos de vida. 30 malditos anos de vida. Ela anuncia que comprou um bolo. Um bolo que só deve ser comido no dia do aniversário, mas não é como se eu merecesse, afinal, segundo suas palavras, eu não fiz por merecer. Não fiz por merecer porque eu não a obedeço. Ao ouvir essas palavras, eu olhei para as suas costas. Várias coisas foram sentidas por mim nesse olhar. Despreso. Repúdio. Nojo. O que será que resta a uma pessoa que desperta tais sentimentos contra as suas origens?
O que resta é a morte.
Mas há um problema.
E o problema reside no fato que há uma coisa que um suicida não pode sentir quando quando se encontra em um mundo que demonstra não o desejar, não o valorizar e não fazer o mínimo esforço para o compreender.
Esse sentimento proibido se chama empatia.
Para quê, por qual motivo razão e circunstância, uma pessoa faz o esforço de se por no lugar das pessoas que o cercam quando não sente o mesmo esforço em sua direção.
A dor é inconcebível de tão excruciante.
Tal dor não é física. Mas vem de uma rachadura mental que aflora uma angústia tão sufocante, que faz parecer que até mesmo o ar que se respira não é capaz de deixar os seus pulmões sem lacerar tudo o que há por dentro.
Viver nada mais é que uma fonte inesgotável de dor, angústia, sofrimento e desespero.
Viver é uma merda.
Mas, como se diz, não há nada tão ruim que não possa piorar.
Meus irmãos e um amigo tinham que vir comer o maldito bolo. Para me fazer ouvir horas de falação de merda como se eu fosse o único responsável pela situação miserável na qual me encontro.
Ela é cega. Incapaz de enxergar o estrago que ela fez em minha mente em 30 anos.
Eu sou idiota. Insistindo em manter unidos os cacos da minha mente fragmentada com fita adesiva como se aguentar calado e perseverar fosse capaz de me dar alguma chance de me curar.
Eu não aguento mais, ao mesmo tempo que não tenho o egoísmo tampouco a determinação necessários para por um ponto final.
Ao que parece, só me resta agonizar até que convenientemente a morte me encontre em uma esquina para finalmente me beijar.