08 maio 2021

Afetado

Inútil.

Surdo.

Incapaz.

Burro.

Imprestável.

Cego.

Insuportável.

Porco.


Os predicados a mim dedicados por ela são infinitos.

Nenhum deles, no entanto, são apreciativos.

É angustiante.

Depois de três décadas eu deveria ter aprendido a receber tais delicadezas e não me importar mais. Fingir que não é comigo.

Mas tudo o que ela diz me afeta.

Quer queira, quer não.

Não consigo ouvir e ignorar. Mesmo que eu finja, eu sei que é comigo. E apesar de toda a minha amargura e azedume, toda vez que ocorre algo do tipo - seja de forma contida ou seja bem mais agressiva -, eu me sinto a pior das criaturas.

Indigno de respirar. Indigno da água que eu bebo. Tudo o que ela expõe dá a entender que sua vida seria muito melhor se eu não existisse. Afinal, nada em mim parece demonstrar a ela que eu seja uma pessoa digna de afeto.