Inútil.
Surdo.
Incapaz.
Burro.
Imprestável.
Cego.
Insuportável.
Porco.
Os predicados a mim dedicados por ela são infinitos.
Nenhum deles, no entanto, são apreciativos.
É angustiante.
Depois de três décadas eu deveria ter aprendido a receber tais delicadezas e não me importar mais. Fingir que não é comigo.
Mas tudo o que ela diz me afeta.
Quer queira, quer não.
Não consigo ouvir e ignorar. Mesmo que eu finja, eu sei que é comigo. E apesar de toda a minha amargura e azedume, toda vez que ocorre algo do tipo - seja de forma contida ou seja bem mais agressiva -, eu me sinto a pior das criaturas.
Indigno de respirar. Indigno da água que eu bebo. Tudo o que ela expõe dá a entender que sua vida seria muito melhor se eu não existisse. Afinal, nada em mim parece demonstrar a ela que eu seja uma pessoa digna de afeto.