Até o momento, não tive a decência de reler meus textos antigos.
Sei que é importante, mas vergonha de encarar o passado me impede.
Desde sempre eu me recuso a encarar o meu passado. A estupidez, a demência, a burrice, a ignorância, a inconsistência de cada ato pretérito meu me assombram de maneira pavorosa. Mesmo sabendo que não devo ter escrito muito sobre meus pecados, apenas o ato abre brecha para a reminiscência. E a reminiscência é excruciante. E caso eu tenha escrito sobre meus pecados, e, por conveniência, esquecido, o ato de reler sobre meus pecados seria, igualmente, excruciante.
Mas isso não passa de insensatez de minha parte. Não tenho porque temer sofrer com o meu passado, tendo em vista que eu já sofro tanto com ele quanto com o presente. Afinal, sou masoquista. Não que eu desejasse ser, mas, ao que parece, meu corpo e minha mente buscam o sofrimento do mesmo modo que um peregrino no deserto busca por água.
E amanhã será mais um dia em que o sofrimento irá atingir seu ápice.
Um dia que eu desprezo. Um dia que eu repudio. Um dia que a obrigação social me compele a trair minha emoções e sentimentos afim de evitar um sofrimento, um distúrbio ainda maior. Tudo o que eu faço é tentar manter meu sofrimento em um limite suportável. E sempre que prevejo que ele irá ultrapassar tal limite, minha tentativa é me preparar para que ele não seja o maior possível. Afinal, sendo amanhã o dia que é... Sendo amanhã o combo maldito que é... o aumento exponencial do meu sofrimento seria, em todas as instâncias, inevitável.
O consolo talvez seja o sofrimento vir à vista, em vez de parcelado.