Olho ao meu redor e tento me encaixar. Tento encontrar o
lugar onde eu pertença, onde eu me sinta completo. Não consigo.
Me pergunto por que as coisas tem que ser assim. Todos ao
meu redor parecem ter encontrado o seu lugar, e ninguém parece notar que eu
ainda não encontrei o meu. Creio que poucos se importem, ou, talvez, ninguém se
importe.
Todos parecem felizes. Felizes em seus conceitos deturpados
ou felizes vivendo suas mentiras ou as mentiras que alguém conta. Já vi vários
castelos de mentiras ruírem e essas “felicidades” chegarem ao fim, mas me
espanta que alguns durem tanto tempo.
Me pergunto se a felicidade é de fato algo que só se
conquista ao construir um castelo de mentiras e rezar para que ele dure perpetuamente.
Isso não me parece justo. Aliás, nada me parece justo. Como achar justa uma
vida em que todos são felizes, ou fingem ser felizes, enquanto há um buraco no
meu peito. Um buraco que surgiu como resultado de anos de solidão.
Fico a pensar quando foi que nasceu esse buraco. Talvez
tenha nascido comigo, naquela fatídica sexta-feira do mês de novembro. Ou,
talvez, quando eu percebi que não era muito querido em minha própria casa.
Desde a infância eu tinha consciência da minha solidão, eu só não sabia como
ela é imensa. Grande demais para eu poder lidar com ela sozinho, mas não tenho
esperanças de ter algum auxílio, os humanos são, com raras exceções, um bando
de egoístas.
Esse buraco em meu peito me machuca, e me consome. Sinto ele
doer todos os dias, como se me dissesse que nem adianta tentar. Às vezes,
encontro algo que me faz esquecer a existência dele, um jogo, um livro, etc.,
mas ele sempre volta a incomodar, a doer. Não importa o quanto eu tente fugir
dele, uma hora ele sempre dá as caras e sempre me tira o sono. Afinal, como é
que se foge de algo que está dentro da gente? Ele me consome a ponto de eu
quase não ter mais esperança, e me faz desejar apenas que tudo chegue ao fim,
que meu tormento acabe, e que, na falta de felicidade, eu possa, ao menos, ser
abençoado com uma paz infindável. Mas eu não sou do tipo que dá fim às coisas
quando o mesmo demora a chegar.
Onde está o meu lugar? Aquele que vai me livrar da minha
solidão e do meu tormento.
Lembro o dia em que pensei o ter encontrado. E ele seria ao
lado de uma guria. Uma guria que eu desejei, mas ela não sentia o mesmo por
mim. Aquilo não me abateu porque me agradava demais estar ao lado dela. Eu
acreditava que ali era o meu lugar. Ao lado dela. Conversávamos por horas,
fizemos promessas, planos, compartilhamos segredos, ela me mostrou coisas
novas, coisas que, hoje, são parte de mim. Todo o que eu queria era ser seu
amigo, pela eternidade. Mas ela foi se afastando. Ela tem novos amigos, um
namorado. Creio que essas pessoas são mais interessantes que eu. Ela parece
feliz, e eu estou sozinho. Ela me tirou de minha solidão por um breve momento,
só para me atirar novamente dentro dela.
Creio que as palavras de Humberto Gessinger nunca se
encaixaram tão bem em mim. “Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum
trem que não passa por aqui...” Acho incrível como “A Revolta dos Dândis I”
fala de mim com mais perfeição do que eu poderia conseguir. O retrato perfeito
de alguém que não encontrou o seu lugar. Imagino se um dia eu o vou encontrar.
Eu quase já não tenho esperanças, mas elas teimam em me abandonar
definitivamente.
O que eu poderia fazer para fechar esse buraco em meu peito?
Imagino se eu significasse algo de bom para alguém, algo importante, talvez eu
encontrasse o meu lugar e, pela primeira vez, me sentisse completo e feliz. Mas
minhas decepções e minha pouca esperança me impedem de tentar. Na verdade,
tenho medo. Medo da sociedade, que me impõe um modo de ser; medo das pessoas,
que são cruéis e egoístas; medo de sofrer mais do que creio que sofro. Isso tem
me feito ficar muito recluso. Tanto medo que minha vontade é me proteger de
tudo isso. Medo. Creio que é isso a única coisa a que eu dou ouvidos.
O fato é que eu não sei mais o que fazer e, somando isso ao
medo, eu opto a não fazer nada. Creio que não tenho mais sonhos ou planos,
creio que só me resta a vontade de que esse buraco em meu peito seja
preenchido. Preenchido com algo bom e durável. Algo que dure por toda a
eternidade. Mas creio que isso é apenas uma ilusão.
Ser consumido por medo e solidão é um jeito bem desgraçado
de viver. Mas acho que eu não conheço outro. Talvez um dia, quem sabe, tudo
isso acabe e eu possa, enfim, desfrutar a paz do meu descanso. Mas acredito que
seria decepcionante morrer sem ter, de fato, vivido.